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20 maio 2008


Fernando Pessoa
"Mensagem"

"Ó MAR SALGADO,
Quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar.
Valeu a pena?
Tudo vale a penase a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu."


"Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!"

Fernando António Nogueira Pessoa (1888-1935, Lisboa), poeta e escritor português. Pessoa, considerada junto de Luís Vaz de Camões um dos mais importantes poetas de língua portuguesa.
Tipos de Livros

Existem três tipos de livros: os que se lêem devagar, os que se lêem depressa e os que foram escritos para ocupar os espaços vazios na estante da sala. Estes últimos são quase todos vendidos pela Selecções do Reader's Digest, pelo que vou apenas falar dos dois primeiros.

Os que se lêem devagar não são muito diferentes dos que se lêem depressa: ambos têm um determinado número de páginas que vamos virando (uma de cada vez, de preferência) com o objectivo de chegar ao fim. Tanto uns como outros têm páginas com palavras que formam frases e frases que formam parágrafos e parágrafos que formam mais páginas.A principal diferença entre um livro que se lê devagar e um livro que se lê depressa está na velocidade com que queremos virar as páginas. Há livros que nos fazem virar as páginas mais devagar; outros deixam-nos tão ansiosos pelo final que viramos as páginas mais depressa.
Dito desta maneira, até parece que a Literatura é uma corrida – diferencia-a apenas a velocidade com que percorremos o caminho e a rapidez com que chegamos ao nosso destino. Claro que a Literatura não é a corrida ou a caminhada em si, mas o momento em que paramos para respirar.Como as grandes virtudes da vida moderna costumam ser apenas as que se prestam à quantificação, é natural que quem entre na corrida não tenha pachorra para o chato que está sempre a parar por querer apreciar a paisagem.

Os livros que se lêem depressa têm grande sucesso sobretudo quando a história «promete», pois folheamos as páginas com a maior rapidez possível. A ânsia é tanta que damos por nós a saltar parágrafos inteiros, se for preciso, só para chegar mais rapidamente ao fim.Deve ser essa a sensação dos fãs do Harry Potter quando afirmam estar «em pulgas» para saber o que vai acontecer no último livro.Embora estes saltos entre parágrafos pudessem ser terrivelmente prejudiciais para as obras que se lêem devagar, no caso dos livros do Harry Potter não se perde nada – digo isto não como crítica destrutiva mas porque, do ponto de vista do clímax da história (a confrontação final entre Harry Potter e Voldemort), são irrelevantes os bocejos provocados pelo capítulo em que se narra uma festa de casamento entre dois feiticeiros do jetset mágico.Há escritores que compreendem tão bem as ansiedades dos seus leitores que chegam a criar capítulos de duas ou três páginas cada – só para dar a ilusão de que o livro se lê bem porque, lá está, se lê mais depressa. Penso que esses livros podiam ser impressos consoante a linha de comboios a que se destinassem.

No meu caso, por exemplo, não me importaria que o primeiro capítulo de O Código Da Vinci se chamasse São João do Estoril, o segundo São Pedro do Estoril, o terceiro Parede, depois Carcavelos e por aí fora. Talvez até a busca do Santo Grall pudesse ser feita apenas entre as estações de Cascais e Cais do Sodré.Os livros que se lêem devagar, contudo, são mais difíceis de obter sucesso porque nos dizem certas coisas que às vezes não convém saber. Dizem-nos, por exemplo, que a Tecnologia é estupenda quando precisamos de ser velozes e atingir determinados objectivos, mas que não nos ajuda a respirar e ver a paisagem.Dou o exemplo dos blogues: a Tecnologia fornece-nos todas as ferramentas para abrir um com a maior das facilidades, mas infelizmente não nos pode ajudar quanto ao conteúdo dos posts. Isso é connosco. E quando chegamos a esse assunto tão importante – o que somos, o que temos dentro de nós e o que podemos fazer com aquilo que temos dentro de nós – convém estarmos preparados psicologicamente para a possibilidade de descobrir um enorme vazio.Não escrevi «enorme vazio» com a intenção de dizer que somos estúpidos ou menos inteligentes porque gostamos do Harry Potter, mas com a intenção de dizer que estamos enganados. O que preenche um ser humano é a Cultura, como escreveu Edward Bond, não é a Tecnologia ou a Tecnologia disfarçada de Magia. Cultura é tudo aquilo que te faz abrir os olhos sem te cegar: um livro, um passeio de bicicleta, uma peça de teatro, um filme, a letra de uma canção, alguém que te olha através de uma fotografia, um blogue, as palavras de um amigo.

Acho muito bem que se queira andar mais depressa quando é realmente necessário, mas nenhuma pessoa pode viver em plenitude sem que tenha sentido pelo menos uma vez na vida o prazer de ter simplesmente parado para respirar.Os livros que se lêem devagar são uma forma fácil de conseguir respirar neste mundo. Não só têm páginas que nos obrigam a ler mais devagar como até podem ter outras que nos obrigam a ler devagar, e devagar mais do que uma vez.

retirado de www.bitaites.org